O primeiro e o último

À procura de um alexandrino perfeito,
Feito aqueles que lia em antigos sonetos,
Percebi que seguir regras não é meu jeito
De escrever poemas: são esforços obsoletos.

Me desculpem Camões, o velho Poetinha
E aquele Guilherme que sacudia lança
Se, porventura, os ofendo: não quero rinha!
Mas a forma está velha e esta escrita me cansa.

Prefiro brilhar feito beatnik vagabundo
E antropófago – haicais tortos, nu concreto…
Escutando uivos, bebo mais um Bukowski

E, em seguida, arroto as notas de um velho imundo.
Sim, meu poema só segue a regra do afeto.
É o meu lema, o do sol e o do Maiakovski.

Chumbo

Na vida, já fui pedra
E, oh! Irmãos e irmãs,
Como rolei!
Nas horas tardias da noite,
Quando os rios vermelhos corriam secos,
Como me senti!
Distorcido, comprimido e sintetizado –
Sim, senti um pouco de cada timbre,
Bebi um tanto de cada som
E, feito um número ímpar,
Marquei o ritmo de muitas empreitadas queimadas por aí,
Buscando uma porta, uma maneira de fugir de todos e todas –
Ah, como me sentia!
Aquele grito sem palavra,
Loucura, loucura –
Entre sonhos meus e nossos,
Em meio à escuridão, em meio à dor:
Uma longa vogal sem fim, persistindo e resistindo
Enquanto durasse a canção,
Pois era essa a hora da trova e do choro…
Ah, meu amor, em minha cabeça
Risos e dores confundiam-se em longos acordes dissonantes.
E, mesmo assim, prossegui no arco-íris,
Entre ruínas e delírios…
Força e escudo, suportando a pressão,
Rolei e rolei, feito pedra,
Deslizando até o fim…

Dédalo

Quantos labirintos e quantos espelhos
Quantos reflexos cortados
Frios e laminados
Quantos sinos tilintam rachados
Roucos rasgados –
Largados e loucos
Que vão tontos, assombrados,
Contra o tempo, contra o ponto
Sem cintura para seguir o jogo determinado…
Quantos pés quebrados de versos cansados
De particípios passados sem graça,
Cheios de falsos achados
De enganos forçados…
Diluído aguado diluído aguado –
Eis o eterno aqui retornado,
Ariana e o fio perdido da meada –
A busca do tempo perdido encerrada,
E a busca do tempo a perder
Que ainda nos aguarda.
O olhar descampado
As palavras descabidas
A cabeça acabada.

E quanto silêncio agora que o dia apaga,
Que as folhas caem na noite calada –
Quanta estrada vazia, quantas vagas lembranças,
Quanta coisa passada…
Estas luzes frias e suas janelas cansadas,
As brisas tristes que não carregam nada
A distante revoada
E a hora que bate e bate atrasada.
Quanta volta, por fim,
Até outra madrugada
Para ver as mesmas incertezas renovadas
Revisitar a obra inacabada
E, de corda esticada,
Encarar mais uma rodada.

Tanta trova para falar o dito
E para guardar o secreto…
Tanto rearranjo, tanto desacerto.

Falta espaço.
Sobra infinito…

Quimeras

A senhora do outro lado da rua não sabe quem sou.
Não sabe de onde vim,
Não sabe para onde vou,
Não sabe se, um dia,
Amei ou feri
Chorei ou sorri
Enfrentei ou fugi…
Não sabe se já tive esperança
Ou se, à espera, deixei as coisas ruir.
A senhora do outro lado da rua me observa apenas.
E, nesse instante de perguntas infindas,
Antes que pudesse me perguntar o que sabia dela,
Percebi que nada sabia de mim.