Ciranda

Então nasci
Na dança cósmica.
Do ventre saí
E dei o grito.

Já no primeiro passo
Senti o atrito da terra
Contra meus pés.
Chorei e sorri.

Depois, cresci.
E nunca soube porquê.
Esqueci cedo
Ou aprendi tarde.

No momento, uso óculos
E às vezes suspiro resignadamente –
Mas ainda ensaio
Meus passos de dança.

Lá no meio,
Veremos.

No final,
Quem sabe?

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Néon

Sombra, sombra…
Repousa tua cabeça sobre meu ombro
E vamos assistir, com assombro,
A triste beleza dos escombros
De tantos desencontros…

Longa,
Longa noite.
Deixa de lado teu açoite
E deita teu fardo cansado
Sobre meu peito…
Assim, desse jeito.

Acorda  –
Que na manhã,
Tua vaga memória
Se perde entre outras histórias
Que esquecerei de contar…

Ouroboros

Ave Telos,
A razão e o fim das coisas.
Eu, que apago em mil ocasos
E ardo na milésima primeira aurora,
Ergo a mão que saúda e despede –
E deste cansado crânio
Entoo cânticos ao infinito
Esmagado entre sua grandeza
E sua pequeneza.

Na fogueira que consome,
Consumo cada célula ao ritual:
O astro que morre e o vazio devorador,
A estrela que nasce e explode em amor.
A ti, entrego meu nada
Para que dele floresça tudo
Desde a semente de meu coração em chamas.

Ave Telos,
Ouço tuas trombetas demolirem sonhos
E erguerem os muros de novos labirintos Esplêndidos & aterrorizantes
Convidando-me a conhecer teus arcanos
E, feito falena, me perder
Novamente e novamente e novamente
Atrás do fogo do desejo
Até queimar e me tornar cinzas…

Molha-me então com tuas lágrimas
E molda-me na forma que te convir –
Estou pronto para mais um retorno,
Estou pronto para ressurgir.

Farol

Neste vai e vem,
Nuvens chegam e vão:
Deixam sombras pelo chão
E chuva sobre alguém.

Nesta estranha via escura
Canta o vento frio:
Treme o fogo no pavio
Da candeia que procura.

Qual a certa aposta?
Qual a senda certa?
O tempo passa e aperta,
O prazo chega e encosta.

Desenrola o novelo de lã,
Mas perde o fio da meada.
No canto, espia a obra inacabada.
Ah, haja hoje para tanto amanhã…

Ode às Geraes

Do silêncio, de repente,
Emerge um longo grunhido,
Ruído grave que espanta os pássaros
Sentados nas copas das árvores.
Barulho de terra rachada,
Uma longa fenda se abre na pedra cinza.

O tremor sob os pés
E o temor sobre a fé
Abalam os passos dos transeuntes
Que param, espantados,
Em busca da misteriosa origem
De tantos profundos pavores.
Alguns pranteiam as vidas
Engolidas pelo buraco devorador.
Outros, corajosos, posam e tiram fotos.

Uma revoada de morcegos surge das profundezas
E, por um momento, escurece os céus.
Falam de fim dos tempos,
De pragas antigas e de previsões milenares.
Cachorros cheiram a beirada do abismo
E soltam solitários uivos,
Logo tidos como sinais de tempos sombrios…

Barracas de fiéis circundam o local,
Repórteres e cientistas brigam
Entre certezas, teorias e especulações.
Ambulantes vendem réplicas em resina e durepoxi,
Mas as polícias de três municípios próximos
Logo reprimem a atividade.

João Alves estabelece o primeiro assentamento fixo,
No mesmo dia em que descobrem
Uma grande jazida de quartzo branco.
“Se tem quartzo, tem ouro”.
Retirantes se aglomeram diante do cercado improvisado
Em busca de uma vida melhor.
Restaurantes cobram entrada para o sanitário…
Mas não há ouro, apenas ferro.

O governo chega enfim:
Proíbe, depois promete –
Poucos arrecadam…
No verão, a filha de um funcionário desaparece.
Bombeiros são acionados
E acham a menina.
Mas um voluntário, doutorando em geologia,
Morre num desabamento…
Seu nome é logo esquecido após a Missa de Sétimo Dia.

Depois de um enorme imbróglio burocrático,
Com vários embrulhos e reviravoltas,
Empresa e governo fecham acordo.
Retroescavadeiras e pás-carregadeiras chegam à junção norte,
Prontas para devorar as encostas.
Grupos ambientalistas protestam o desfecho:
“Mas há ali todo um habitat!”

Meses depois, há lixo por toda parte.
A presença humana deixa as suas marcas,
Amiúde mais indeléveis
Que suas próprias breves vidas…
Uma poetisa escreve uma longa ode ao fosso.
Compara-o às profundezas oceânicas,
Despeja seu saber em longos versos –
Nunca são publicados.

À noite, sob uma lustrosa via láctea
Ao longo da selva fosseirinha,
Há rituais místicos entoados até o amanhecer –
Ninguém sabe o que dizem.

No ano seguinte é criado o município de Fossa Escura,
Com seus seis mil habitantes,
Mil a mais que o Minduri velho
(Onde caiu o raio no vereador –
Diz-que foi por conta do ferro nos morros).

As varandas mais caras da vila ficam na beira oeste,
Onde o sol o bate sobre a formação rochosa
E deslumbra o espectador
Com fantasmagorias azuladas e esverdeadas.
São as mais caras, de longe….
Nem se comparam, no outro extremo,
Aos barracos dos operários da cavidade,
Esse povo que vive em condições precárias,
Labutando a commodity fóssea
Para o bel-prazer dos fosseirinhos.

A despeito de muitos avisos de perigo,
Todo ano turistas caem.
“Insensatos, irresponsáveis…”
Diz a primeira geração de idosos fossescurences.
Pois ainda que o enigma tectônico permanecesse debatido
Em todos os grandes círculos acadêmicos,
A certeza de um trágico desfecho numa queda era inquestionável.

Um dia, sem pré-aviso,
A fenda subitamente juntou seus lábios
Num rugido monstruoso:
O longo bocejo da Terra terminava,
Destroçando árvores e edifícios
Demolindo vidas, arrebentando,
Esmagando, esfacelando tudo à sua volta,
Sem preferências ou pudor.

Silêncio.

O sol nasce impávido –
Imperturbável.
Os pássaros aos poucos voltam às árvores restantes
Sobre a nova colina que surgiu do choque –
“Morro do Escombro”, batizam-na anos depois…
Só quem um dia viu a fenda
Pode atestar a verdade das lendas que surgem então.
Mas, com o tempo,
Também essas últimas levas de testemunhas vão definhando,
Deixando apenas riscos nas pedras antigas
Que outrora foram as vísceras da fossa escura.

“Marina ama Timoteo”
Encontram alguns curiosos,
Décadas depois,
Talhada sobre uma rocha,
A declaração cuja data antecede a tragédia.
Parece um rabisco qualquer, recente…
Mas a pergunta fica:
E Timoteo, amava Marina?

O primeiro e o último

À procura de um alexandrino perfeito,
Feito aqueles que lia em antigos sonetos,
Percebi que seguir regras não é meu jeito
De escrever poemas: são esforços obsoletos.

Me desculpem Camões, o velho Poetinha
E aquele Guilherme que sacudia lança
Se, porventura, os ofendo: não quero rinha!
Mas a forma está velha e esta escrita me cansa.

Prefiro brilhar feito beatnik vagabundo
E antropófago – haicais tortos, nu concreto…
Escutando uivos, bebo mais um Bukowski

E, em seguida, arroto as notas de um velho imundo.
Sim, meu poema só segue a regra do afeto.
É o meu lema, o do sol e o do Maiakovski.

Chumbo

Na vida, já fui pedra
E, oh! Irmãos e irmãs,
Como rolei!
Nas horas tardias da noite,
Quando os rios vermelhos corriam secos,
Como me senti!
Distorcido, comprimido e sintetizado –
Sim, senti um pouco de cada timbre,
Bebi um tanto de cada som
E, feito um número ímpar,
Marquei o ritmo de muitas empreitadas queimadas por aí,
Buscando uma porta, uma maneira de fugir de todos e todas –
Ah, como me sentia!
Aquele grito sem palavra,
Loucura, loucura –
Entre sonhos meus e nossos,
Em meio à escuridão, em meio à dor:
Uma longa vogal sem fim, persistindo e resistindo
Enquanto durasse a canção,
Pois era essa a hora da trova e do choro…
Ah, meu amor, em minha cabeça
Risos e dores confundiam-se em longos acordes dissonantes.
E, mesmo assim, prossegui no arco-íris,
Entre ruínas e delírios…
Força e escudo, suportando a pressão,
Rolei e rolei, feito pedra,
Deslizando até o fim…